domingo, 18 de julho de 2010

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Talvez ele não estivesse preparado.
O tipo de descoberta feito na porta do avião, 27 mil pés (8.200 metros) acima do chão. Chão que sempre lhe deu conforto. Nunca o concreto havia sido tão confortável. 

Pulou. 
Deixou-se levar. O corpo ficou leve.
As construções crescendo lentamente na eternidade da queda. 
Pode pensar na vida. 
Em paz, pode pensar nela. Nos momentos do passado, daqueles em que uma simples frase se tornava um gracejo feliz.
O sussurro das árvores chamava ele para mais perto, e o céu o seguia durante a caída.
O tempo sem esperança que ela sempre deu agora era uma possibilidade. Opção com cara esborrachada, mas o simples talvez lhe dava felicidade.

Os prédios agora estavam maiores. 
Todas aquelas músicas lindas vinham à mente.
A felicidade balançava no ar. Como a esperança que, ele sim, sempre teve para os dois.







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Z: Vamo embora, vai chover.
Cl: Claro que não, olha lá perto daquela ilhazinha como o sol tá laranja ainda.
Z: Mas a tia Vera já chamou uma vez.
J: Minha mãe é uma chata, ela vai gritar da janela mais 40 vezes.
Cm: Se fosse a tia Tina a gente ficava aqui até de madrugada.
Z: Meio perigoso a gente ir sozinho depois...
J: O Léo tá jogando futebol com os moleques ainda, com aquele tamanho ninguém vai mexer com a gente.
Cl: Fora que é uma quadra só, seu chato.
Z: Vou falar pra mamãe que você me chamou de chato!
Cl: Pode falar, ela tá a 100km daqui mesmo...
Cm: Primo, pode ir lá com os moleques que eu ainda tenho que ensinar sua irmã a dar estrela.
J: Como você não sabe dar estrela ainda?
Cl: Eu odeio as aulas de ginástica no colégio. Mas aqui na areia parece ser mais fácil...
Z: Desiste, vocês ficaram ontem tentando até oito da noite e sua perna ainda dobra. E você ainda cai.
Cl: Não tava jogando bola com os meninos não, ow chato?
Cm: Relaxa, a gente ainda tem mais 8 dias de férias. Um dia ela aprende.
J: Vocês tão todos imundos, vamo pra casa, vai.  Cansei de ser babá já.
Cl: OK, mas eu não sou a primeira a tomar banho! Você vai primeiro.
Cm: Hey, a gente tinha combinado que era dia sim dia não.
Cl: Hoje é dia não.
J: Vamos porque a gente tem que arrumar os colchões na sala antes de sair pra ferinha.
Z: Isso se a chuva não atrapalhar...




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sábado, 17 de julho de 2010

For no one, just for me.

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"Eu gostaria de fazer uma lista dos cinco melhores discos que não te façam sentir nada (...).

Quando cheguei em casa, pensei em colocar algo dos Beatles. Com certeza Abbey Road, e pensando bem programo o toca-CD para pular Something.
The Beatles significa abrir os desenhos que vinham no chiclete, ou ver Help num sábado pela manhã no cinema do bairro, e aquelas guitarras de brinquedo que eu usava para cantar Yellow Submarine com voz esganiçada nas excursões de colégio - sempre sentado no último banco do ônibus.

São sensações que pertecem somente a mim, que não pertencem nem a "Laura e eu", nem a "Charlie e eu", nem a "Alison Ashworth e eu".

Mesmo que essas sensações me façam sentir alguma coisa, pelo menos não será nenhum sentimento ruim."

(High Fidelity, ainda Hornby - traduzido e adaptado por mim mesma)





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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Música é cor e nuvem

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"Because music, like color, or a cloud, is neither intelligent nor unintelligent - it just is. The chord, the simplest building block for even the tritest, silliest chart song, is a beautiful, perfect, mysterious thing, and when an ill-read, uneducated, uncultured, emotionally illiterate boor puts a couple of them together, he has every chance of creating something wonderful and powerful. 
All I ask of music is that is sounds good."
Nick Hornby Songbook



Onda amarela,
onde dois corpos balançam como guitarra no primeiro acorde
(Ser a parte menor dos dois corpos é bom porque podemos ser totalmente absorvidas pelos longos braços)


Dar nome pra pinta,
rir quando descobre o que diabos é "beatin 'round the bush"
cantar imitando cada sílaba do refrão
e depois gargalhar de pernas pra cima.

Let´s love.
Sugar.







sexta-feira, 25 de junho de 2010

Em caso de persistência desses sintomas um médico definitivamente deverá ser consultado.

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Oito horas de jejum para tirar sangue amanhã,
(oito horas diz a prescrição)
mas o jejum permanece intacto,
desde ontem, 
anteontem,
ante-ante-ontem.

Ok, o sangue será examinado.


(Borracha, aperto, 
picada aguda de um Si estridente. 
E vejo o sangue, que sai da veia. 
Congelado)  


Mas, nessas condições, descarte o laboratório!
É mais simples olhar nos meus olhos (mais simples, e nao mais fácil)
ou veja minha bochecha, rosada de uma vergonha que talvez não devesse sentir.
Senhorita Enfermeira, esqueça a bula! Os óculos de leitura!
Que aqui as letras são garrafais. 






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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Coração Coroado

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Agora tudo que é sentido, visto e pensado é dominado por difíceis e tolos temas
Temas preocupantes
Preocupações que são consoladas por frases feitas
Frases que nem entram na cabeça, pois esta está mais concentrada em afundar embaixo da terra e


SU-MIR!!!





Mas estou em Paris.
Paris com dia cinza e igreja branca
Igreja lá em cima, a cansativos degraus que esperam meu ânimo voltar
Caminhos brancos com vista-a-perder-de-vista.

Sentada em um banco perto de um carrosel
Vejo crianças sonhando enquanto cavalgam seus cavalos alados calados
Calados que sobem e descem, acompanhando a música
Música que traz calor e deixa o dia mais azul esverdiado, verde azulado.
Suas frases são aquelas mesmas, as já feitas
feitas sobre temas que depois vemos que são somente tolos, muito tolos...






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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Olhar ao mar

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Fugindo daquele botequim,
chega em casa.
Senta e se apóia na mesa em frente ao móvel de fórmica azul.
Em cima dele uma garrafa de água divide espaço com a de pinga.

Cheiro recente a sépia.
Aquela cigana bela, olhos capitunescos indecisos.
João busca em terras quentes e distantes uma explicação para a enigmática Clara Folclórica Nunes.

O manto de medo se mistura com o manto do mar, de onde emerge o veleiro que agora vai longe, longe, até se perder da vista de casais apaixonados.

Fugiram por não terem medo. Medraram por não querer fugir.



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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bad timing

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Tarde da noite e a lua tá alta e cheia. Com um brilho macio. Provocando um olhar roxo viciante. Olhar que é alternado entre a janela da sala e a janela do computador.
Era Windows 98 e a internet entrou de vez na vida de todos. Por isso o hábito dos longos papos em chats era ainda escasso, gerando uma frustração infantil mesmo em um menino de 22 anos que precisava conversar com ela.
Ele simplesmente PRECISAVA.

Naquela noite eles tiveram coragem de se declarar um ao outro, de ver que realmente aquilo que ele sentia não era uma via de mão única. E justo quando estavam no auge da conversa, a conexão discada falhou.

E a janelinha do ICQ não piscava mais.

Ela não voltaria?!?
O que mais o afligia era o que fazer com aquilo tudo. Ambos eram comprometidos. Namoros de faculdade, quando as relações começam a ficar mais sérias.
Mas foram amigos por tanto tempo, e nada tinha acontecido. Tanta chance tiveram de ver como era o gosto da boca e do lábio, de sentir cheiro de nuca e olhar sem medo...

"Deus é um piadista, e ele deve estar rindo da sua cara agora", pensou.

De repente começou a tocar no winamp aquela música breguinha do Dire Straits. Recentemente a letra tinha chamado sua atenção quando a escutou em um álbum ao vivo do grupo. Parecia que Mark Knopfler tinha vivido a mesma coisa. O mesmo maldito bad timing...


A música tem 8 minutos e 17 segundos. Se "Dri_82" não aparecer até a canção acabar ele jura que iria embora.

6´22´´
...
4´38´´
...
1´09´´

...

Ah....
Não custa deixar tocar mais uma vez, vai... Essa lua, nesse momento cheirando a névoa, por mais melancólico que seja, vale a pena.

Com sua licença, o primeiro do blog

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Imagina que tem uma piscina lá fora, mas a água está parada...
É tarde da noite e não faz calor. Sua função é refletir a luz e isso já basta.

É uma noite de gala. Todos bem vestidos (a banda inclusive). Smoking geral. Acho que o cantor usa camurça. Fica bem, combina com a gravata e os olhos escurecidos pelos cílios grossos (os maldosos pensam que ele passa rímel).

A banda se mantém sentada e ele de pé em frente, postura ereta, o microfone como uma betoneira.
É um soldado.
Quando ginga, se mistura à banda ao fundo do palco.
O solo de guitarra me faz voltar a atenção para os pés do guitarrista. Belos sapatos brilhantes apoiados em um amplificador...





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